Lei de Murphy, ou porque a torrada cai sempre com a manteiga para baixo

 

Quando uma torrada cai, é por demais sabido que há-de cair com a manteiga virada para baixo. Parece que é mais ou menos o mesmo princípio que faz chover se você não leva guarda-chuva em dia meio cinzento, mas faz vir sol se você levar o dito guarda-chuva.

Aparentemente, como a torrada tem dois lados, a probabilidade de cair com a manteiga para baixo devia ser igual à probabilidade de cair com a manteiga para cima. Ou seja, metade das vezes a manteiga devia ficar virada para cima em vez de sujar os tapetes. Mas é uma verdade quase tão certa como a fila no supermercado quando você está com pressa. Só não o sabe por experiência própria quem não come torradas ou as come sem manteiga.

Diz-se à boca cheia que o problema das torradas é uma demonstração clara da famosa lei de Murphy. Segundo esta lei, “tudo o que pode correr mal, vai correr mal”. Isto explica fenómenos como o do autocarro que se atrasa sempre, excepto no dia em que você também se atrasa: nesse dia passou a horas e você já o perdeu.

Bem, a “lei de Murphy” não é bem uma lei científica, mas acaba por ser uma lei “de facto”. A origem do adágio não é bem conhecida. Já no século XIX havia referências a “leis” parecidas. O nome “Lei de Murphy” popularizou-se em meados do século XX, quando o engenheiro aeronáutico Edward Murphy estava a testar um foguete. O projecto sofreu uma série de acidentes de percurso. Quase tudo corria mal. Isto é comum quando se experimentam coisas novas, mas o tempo é sempre curto, e nesse projecto não era excepção. A determinada altura, Edward precisava de medir a aceleração do foguete. Havia duas maneiras de ligar os sensores: uma certa e uma errada. Como não podia deixar de ser, os sensores foram ligados da forma errada e o teste foi em vão. Depois de uma série de outros acidentes, Murphy terá feito um desabafo que ficou conhecido como a sua famosa “lei” - se alguma coisa pode correr mal, é certo que vai correr. De facto o projecto não correu muito bem, mas também não houve mortes. De forma que quando acabou o malfadado projecto do foguete, alguém perguntou a um membro da equipa, o capitão Stapp, como era possível que num projecto tão desastrado ninguém tivesse morrido. Stapp respondeu que tinham sempre tido em atenção a “lei de Murphy”. Como sabiam que as coisas iam correr mal se pudessem correr, evitaram sempre expor as pessoas a situações de perigo. Dessa forma tinham conseguido evitar o pior dos casos, que era haver mortes. A ser verdade a história, terá sido Stapp quem usou pela primeira vez a designação de “lei de Murphy”. A partir daí o nome pegou e popularizou-se.

Nos últimos 50 anos surgiram livros inteiros, sítios na Internet, mensagens electrónicas e uma verdadeira loucura à volta da lei de Murphy. Entretanto surgiram até uma infinidade de variantes, do género: Qualquer coisa leva mais tempo do que todo o tempo que você tem disponível; Se várias coisas podem correr mal, ou correm todas mal ou corre mal a que causar mais estragos; Quando um trabalho é mal feito, qualquer tentativa de melhorá-lo piora; Entre dois acontecimentos prováveis, acontece sempre um terceiro improvável; Toda a solução cria sempre novos problemas; Todo o projecto tem seis fases: entusiasmo; desilusão; pânico; busca dos culpados; punição dos inocentes; e glória dos não participantes. Mas há centenas de outras leis de Murphy, como resumido, por exemplo, no sítio do Humor na Ciência [1].

Ainda de volta às torradas, o caso não é bem uma aplicação das leis de Murphy. Há uma explicação mais racional para tantos pequenos-almoços estragados. O problema tem a ver com a altura. Quando a torrada cai, normalmente cai da mesa ou da mão de uma pessoa, e antes de cair estava com a manteiga virada para cima. Acontece que ao cair vai rodando, e a altura da mão ou da mesa é a medida exacta que lhe permite dar mais ou menos meia volta. Quando chega ao chão, a parte da manteiga já está para baixo. Não há palavrão que o evite, a manteiga vai mesmo barrar os mosaicos ou os tapetes. Felizes das pessoas muito altas ou muito baixas: para essas a torrada pode não ter tempo de dar meia volta, ou pode ter tempo de dar perto da volta completa. Nesses casos vai cair com a manteiga virada para cima. Quem for de estatura mediana está em desvantagem.

 

[1] http://www.humornaciencia.com.br/miscelanea/murphy.htm

 



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://tecnociencia.etikweb.com/Article-50-Lei%2Bde%2BMurphy%252C%2Bou%2Bporque%2Ba%2Btorrada%2Bcai%2Bsempre%2Bcom%2Ba%2Bmanteiga%2Bpara%2Bbaixo.html

Inserido em: 2010.02.05 Última actualização: 2010.02.05

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